Contexto e importância
O debate sobre o Manchester City e as regras financeiras da Premier League ganhou um novo capítulo com um artigo de opinião da ESPN publicado nesta terça-feira. A tese é provocadora: o City trapaceou, sim, mas fez isso porque a liga inglesa foi construída de forma injusta.
O texto parte de uma constatação simples. Na Premier League, alguns clubes podem gastar muito mais que os outros, porque as regras de sustentabilidade financeira atrelam os gastos à receita. Quem já é grande segue grande. Quem quer crescer precisa encontrar atalhos.
Para o torcedor Brasileiro, o tema importa porque a discussão sobre limites de gastos, fair play financeiro e concentração de poder também está na pauta do nosso futebol, com as SAFs e a diferença de orçamento entre os clubes da Série A.
O Manchester City foi acusado pela Premier League em fevereiro de 2023 de 115 supostas violações das regras financeiras, referentes ao período entre 2009 e 2018.
O que aconteceu
Em fevereiro de 2023, a Premier League anunciou que havia encaminhado o Manchester City a uma comissão independente por 115 supostas infrações. As acusações envolvem informações financeiras incorretas, contratos de patrocínio e de treinadores, além de falta de cooperação com a investigação.
O julgamento perante a comissão independente aconteceu entre o fim de 2024 e o início de 2025, a portas fechadas, em um dos processos mais longos e complexos da história do esporte inglês. O clube sempre negou todas as acusações e afirmou ter provas para se defender.
O artigo da ESPN, assinado por sua equipe internacional, não discute apenas se houve ou não violação. Ele argumenta que o desenho das regras, que limita prejuízos a cerca de 105 milhões de libras em três temporadas, protege os clubes com receitas históricas maiores e torna quase impossível uma ascensão sem contornar o sistema.
A pergunta que a ESPN coloca não é se o City burlou as regras, mas se as regras foram feitas para ser burladas por quem quer chegar ao topo.
Impacto no clube e na competição
O impacto para o Manchester City é enorme, independentemente do desfecho jurídico. O clube conquistou seis títulos da Premier League sob o comando de Pep Guardiola, incluindo quatro consecutivos entre 2021 e 2024, e a tríplice coroa de 2023, com a Champions League.
Se o processo resultar em punições severas, as sanções possíveis vão de multas e dedução de pontos até, em teoria, o rebaixamento. Qualquer uma delas abriria uma discussão sobre a legitimidade dos troféus conquistados no período investigado.
Para a Premier League, o caso é um teste de credibilidade. A liga já puniu Everton e Nottingham Forest com dedução de pontos na temporada 2023-24 por violações das regras de lucro e sustentabilidade, conhecidas como PSR. Tratar o City com rigor diferente seria difícil de explicar.
O Everton foi punido com 10 pontos em novembro de 2023, depois reduzidos para 6 em recurso. O City responde a mais de uma centena de acusações, e a comparação entre os casos domina o debate na Inglaterra.
Reação do mundo do futebol
A imprensa inglesa se dividiu. Parte dos colunistas vê o artigo da ESPN como uma defesa indireta do City, enquanto outros enxergam uma crítica legítima a um sistema que consolida a elite tradicional e dificulta a renovação dos campeões.
Nas redes sociais, torcedores de rivais como Liverpool, Arsenal e Manchester United cobram punição exemplar há anos. Já a torcida do City sustenta que o clube é alvo de perseguição de uma elite que não aceitou a chegada de um novo gigante.
Dirigentes de clubes menores da liga também acompanham o caso com atenção. Muitos deles apoiaram as regras atuais justamente para evitar que investidores externos transformem a Premier League em uma corrida de gastos sem limite.
Histórico relevante
O Manchester City foi comprado pelo grupo de Abu Dhabi em 2008. Desde então, o clube passou de coadjuvante a potência global, com investimento pesado em elenco, estrutura e no City Football Group, que reúne times em vários países.
Em 2020, a UEFA baniu o City das competições europeias por duas temporadas por violações do fair play financeiro, mas o Tribunal Arbitral do Esporte derrubou a punição, alegando que parte das acusações estava prescrita e outra parte não foi comprovada.
Em 2024, o City processou a própria Premier League contra as regras de transações com partes associadas, as chamadas APT. O tribunal arbitral considerou alguns pontos dessas regras ilegais, uma vitória parcial que mostrou a disposição do clube em enfrentar a liga na justiça.
Antes da chegada dos donos de Abu Dhabi, o City não vencia o Campeonato Inglês desde 1968. Desde 2012, o clube conquistou oito títulos da Premier League.
Números e estatísticas
Os números ajudam a entender o tamanho do caso. São 115 acusações formais, referentes a nove temporadas, de 2009-10 a 2017-18, período em que o City conquistou três títulos ingleses.
As regras de lucro e sustentabilidade da Premier League permitem prejuízo máximo de 105 milhões de libras em um ciclo de três temporadas. O limite é o mesmo para todos, mas a receita que sustenta os gastos é muito diferente entre os clubes.
Com Guardiola, o City acumulou seis títulos de liga em oito temporadas, um recorde de 100 pontos em 2017-18 e a tríplice coroa de 2023, feito que só o Manchester United havia alcançado na Inglaterra, em 1999.
O que vem pela frente
O próximo passo é a conclusão definitiva do processo e a eventual fase de recursos. Qualquer decisão da comissão independente pode ser contestada, o que tende a prolongar o caso por mais tempo.
Em paralelo, a Premier League discute uma reforma das regras financeiras, com a possibilidade de um modelo baseado em percentual da receita gasto com elenco, mais próximo do adotado pela UEFA. O caso City é o pano de fundo dessa discussão.
Dentro de campo, o City de Guardiola segue disputando o título inglês e a Champions League. O desempenho esportivo, porém, convive com uma sombra jurídica que só vai desaparecer quando o processo terminar.
O caso é conhecido na Inglaterra apenas como "the 115 charges", e o número virou bordão de rivais nos estádios, mesmo depois de a liga ter ajustado a contagem de acusações.
Opinião do especialista
O artigo da ESPN toca em um ponto incômodo. Regras que atrelam o gasto à receita congelam a hierarquia. Quem já vende mais camisas e tem mais patrocínio pode gastar mais, e quem quer chegar lá precisa de um investidor disposto a cobrir prejuízos, o que as regras proíbem.
Isso não absolve ninguém. Se o City forneceu informações incorretas, a punição precisa vir, porque sem regras o campeonato vira um leilão. Mas é justo perguntar por que a Premier League demorou tanto para discutir um modelo mais equilibrado.
Para o Brasil, a lição é direta. Com a chegada das SAFs e de investidores estrangeiros, nosso futebol vai precisar de regras financeiras claras. E elas precisam proteger a competição, não apenas os clubes que já estão no topo.
O caso City é menos sobre um clube e mais sobre um modelo. A Premier League criou regras para conter gastos, mas acabou blindando a elite. O desafio é punir quem burla sem transformar a liga em um clube fechado onde ninguém mais pode sonhar com o título.
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